AXÉ !!!

"Energia mágica, universal sagrada do orixá. Energia muito forte, mas que por si só é neutra. Manipulada e dirigida pelo homem através dos orixás e seus elementos símbolos... o conteúdo mais importante do "TERREIRO DO CANDOMBLÉ" é o AXÉ. É a força que assegura a existência dinâmica, que permite o acontecer e o de vir. Sem axé a existência estaria paralisada, desprovida de toda a possibilidade de realização. É o princípio que torna possível o processo vital."



terça-feira, 24 de julho de 2012

A religião é o caminho escolhido pela razão, aonde a lógica abraça a fé.



O pior pré-conceito, é aquele que sequer empresta a observação dos fatos, a mente aberta e investigativa.

O "supra sumo" da ignorância é adquirir um comportamento, atitude ou opinião, simplesmente porque dizem que é assim, pois todos assim fazem, sem ao menos raciocinar no feito.

Eu defino assim: A religião é o caminho escolhido pela razão, aonde a lógica abraça a fé.

Eu escolhi a minha assim e respeito a escolha alheia, só não tolero fanatismo, o absurdo ou hipocrisia.

O Candomblé é atacado por uma chuva de "papinhos bestas": barbárie e atrocidades com animais, as crianças sacrificadas em rituais de magia negra, licenciosidades sexuais e por aí segue.

Quanto a "barbárie e atrocidades com animais", digo o seguinte: no Candomblé, tudo que há na natureza, tem em si o fluxo primordial, a força origem da propagação da vida e descendência, chamada "sangue". E uma oferenda — não obrigatoriamente de origem animal — deve conter as mais variadas fontes dos naturais poderes, atribuindo vida. Há o sangue animal, vegetal e mineral:

• Sangue animal: Obtidos de bois, bodes, galinhas, patos etc. cujas as carnes, depois, servem de alimentos para toda a comunidade. Não existe sacrifício humano para Orixás, pois Estes vivem no ser humano (parte energética deles na criação da alma humana) e através deles se manifestam.

• Sangue de vegetal: A seiva verde, óleos e extratos retirados nas casca das árvores, folhas, frutos, sementes e flores.

• Sangue mineral: O pó dos minérios e cristais (carvão, sal, enxofre), a seiva líquida da terra quando os metais são derretidos, a água salgada, doce ou da chuva trazendo nutrientes a terra.

Este fluxo primordial, energia geradora de vida e crescimento dentro de cada tipo de sangue, chama-se axé, a força universal dos Voduns. Através de determinados ritos, podem ser direcionadas para o ofertante, aurindo condições e atuando sobre a questão incluída no pedido originando a oferenda, de modo a conceder o desfecho desejado a quem a fez.

Nota: vale a pena esclarecer o seguinte: “cortes de bichos” na ritualística é diferente de assassinato.

Entendemos que é processo natural da vida, matar para sobreviver nos alimentando. Todo ser vivo na cadeia alimentar, preda o outro: os herbívoros, as plantas e os carnívoros, os animais diversos. E isso não é pecado, pois seria presumir algo cruel e malévolo. feito por Deus.

Vamos exemplificar? A diferença entre as vitelas compradas num supermercado para churrasco e o sacrifício de um animal no Candomblé é:

O churrasqueiro para saciar seu prazer degustativo da carne de alta qualidade, não se importa em saber sua origem em bezerros entre três a quatro, cinco meses de idade. Confinados em baias, estes filhotes, são impedidos de moverem-se para terem o mínimo de músculos. Só alimentados com substitutivo do leite deficiente de ferro, tornam-se anêmicos. A pobre alimentação visa atingir a nata da vitela: criação de carne branca e macia de bezerros machos. O abate destes, muitas vezes é longo, cruel e violento para atender a gula de meia dúzia de abastados.

O candomblecista para seu ritual, compra ou cria um bicho saudável, alimentado e crescido normalmente.

O abate é com o mínimo de sofrimento possível, cuidando até mesmo que não se debata em dores. Extrai o sangue e algumas partes para oferenda dos Orixás. O resto é para consumo da toda a comunidade.

Ou seja, nós temos métodos mais piedosos de obter alimento e apenas aproveitamos religiosamente, o que vocês desprezam no seus abatedouros: o sangue.

Que baita hipocrisia fazer dos ritos envolvendo animais, polêmicas, acusando-nos de sermos atrasados e sanguinários, não é? O paladar humano na criação e abate de víveres, o comércio de peles e plumas e outros produtos de origem animal é bem mais perverso e violento e esse sim assassina, ou seja, mata à traição ou violentamente.

Quanto a licenciosidade sexual, não deve existir numa Casa de Axé, tanto quanto numa Igreja, Mesquita ou Templo. Nós apenas reconhecemos como normal outras opções sexuais que não a heterossexual, desde que sejam entre adultos, gozando de suas faculdades mentais e dotada de sanidade, segurança e de mútuo acordo.

Houve um ouvinte irado, face a minha afirmação que ninguém nasce gay ou hétero e sim de um sexo ou outro. Ele me inquiriu sobre os os ditos santos "meta-meta" ou seja de dois sexos. Aqui cabe a observação: tais divindades inexistem no panteão dos Deuses Africanos.

O Deus Supremo encerra em si a totalidade variante de sua criação: o feminino e masculino estão Nele.

Olorun, é grande energia primordial, contendo os dois princípios, pois ninguém gera algo que não tem em si.

As potências energéticas expandem-se Dele em características marcadamente femininas ou masculinas. Foi assim o surgir de Oduduá, Obatalá e outra tantas outras divindades, o que é bastante lógico, diga-se de passagem. Sobre isso falou bem Pepeu Gomes:

“Ser um homem feminino

Não fere o meu lado masculino

Se Deus é menina e menino

Sou Masculino e Feminino.”


Quanto ao hermafroditismo humano… na natureza, apresentam-se três tipos:

• Hermafroditismo verdadeiro: a pessoa nasce com os dois órgãos sexuais bem formados, (internos e externos de ambos os sexos). Neste caso, estes indivíduos são geneticamente do sexo feminino (cromossomos XX) e a formação dos órgãos sexuais masculinos é atribuída às variantes das genéticas.

• No pseudo-hermafroditismo masculino a criança nasce geneticamente como do sexo masculino (cromossomos XY) embora os órgãos sexuais externos não se desenvolvam completamente.

• No pseudo-hermafroditismo feminino a criança nasce geneticamente como do sexo feminino (cromossomos XX) embora o clítoris desenvolva-se excessivamente adquirindo um formato semelhante a um pênis. Atribui-se a causa, aos efeitos dos medicamentos para tratamento da hiperplasia congênita das supra-renais (HCSR) carecendo de tratamento permanente, não interrompido por mulheres, ignorando-se grávidas.

Analisemos. Nos mamíferos há duas condições genéticas: indivíduos com dois cromossomos sexuais iguais são fêmeas, enquanto indivíduos com dois cromossomos sexuais diferentes são machos.

A determinação do sexo em humanos ocorre ao final do segundo mês de gestação e depende da presença do cromossomo Y. Genes presentes neste cromossomo levam à formação de testículos e à produção de doses elevadas de testosterona, que promovem o desenvolvimento das características sexuais secundárias (corpo masculino). Mas há as exceções à regra e um exemplo foi documentado: o caso de as quatro "irmãs" que deveriam ter nascido homens. Além, de possuírem o par sexual XY, havia mais um gene do cromossomo X, tornando as células insensíveis à testosterona e o que isso acarreta: não se formam testículos ou genitália masculina. Possuem genitália e caracteres secundários sexuais femininos, mas sem útero ou "ovários". Em geral, estas pessoas descobrem que não são geneticamente homens quando resolvem investigar por que não menstruam e são estéreis.

No tratamento do hermafroditismo humano, recorre-se muitas vezes a cirurgia para se optar pelo sexo definitivo. Segundo especialistas, atualmente, a genética define o sexo predominante mas de todo o modo a opinião crescente é de que a pessoa hermafrodita escolhe por si mesma se deseja a cirurgia e qual o sexo adotado.

Vale apena informar: Na natureza, cerca de ⅓ dos indivíduos de todas as populações existentes apresentam estruturas sexuais femininas e masculinas. Ou seja, sexo é uma escolha, de novo.

O conceito de Deuses e Deusas "meta-meta" são corruptelas dos fundamentos do Orixá (caminhos de Santo). Exemplo: Òsún Òpàra ou Àpàrà.

Na verdade, Opàrà, é uma Divindade cujo culto assemelhava-se ao de Òsún, mas sua tribo e culto se tornou extinto, se perdeu no tempo e terminou virando qualidade de "Eri Yéyé ó!"  no Brasil.

Ela tem dois caminhos (meios de atuar e enredos de poder), um deles, com Oya. Na Umbanda há o mito errôneo que esta qualidade “roda seis meses como Oxum e outros seis como Oya” ou no caso de Logun Edé que ele tem dois sexos, sendo hermafrodita. Faz-se mister dizer que Logun Edé não muda de sexo a cada seis meses, ele é um orixá do sexo masculino. Ele apenas alterna seu comportamento: ora doce e envolvente como Oxum e em outras, sério e solitário como Oxóssi. Logun Edé, orixá que representa o dual, as contradições onde opostos alternam-se no seres na natureza. Como diz Oswaldo Montenegro em "Aos Filhos de Gêmeos":

“Gêmeos como a luz do dia é vizinha do anoitecer

Gêmeos chuva e, quem diria, o sol que brilhará, dor e prazer

Cada planeta, cada riso em cada esquina que houver

Cada extremo reunido, cada homem gêmeo da mulher.”


Então, termino o artigo como comecei: o pior pré-conceito, é aquele que sequer empresta a observação dos fatos, a mente aberta e investigativa. O "supra sumo" da ignorância, é adquirir um comportamento, atitude ou opinião, simplesmente porque dizem que é assim, pois todos assim fazem, sem ao menos raciocinar no feito.



Rachel da Silva Ferreira – Ya Rachel de Igbalé – é professora, poeta e Zeladora de Axé na Nação Jeje-Mahim. Membro do Ilê Axé Otorrun Mafarunci.



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